quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Enquadramento histórico da Guiné

Do nosso amigo José Graça Gaipo recebemos um artigo, muito completo, sobre a história da Guiné.
O desenvolvimento de todo este trabalho requereu muita pesquisa e, inclusive, foi ainda beber ensinamentos à nossa instrução recebida no Quartel de Penafiel (RAL5), aquando da formação do nosso Batalhão.
O texto refere-se à descoberta da Guiné, à sua situação geográfica, ao clima, ao relevo, à sua vegetação e aos rios mais importantes. 
No aspecto humano debruça-se sobre os usos e costumes das populações, das suas religiões e das diferentes etnias. A organização administrativa, as principais cidades, a saúde pública e a rede escolar, também merecem uma análise. E neste campo das escolas salienta a importância dos nosso militares no ensino dos guineenses.
No aspecto económico fala dos recursos agrícolas e industriais, o comércio, as pescas, a pecuária e as vias de comunicação.
No seu trabalho tem ainda uma referência à legislação militar vigente à época. Aborda os vencimentos e gratificações dos nosso militares na guerra do ultramar e o tipo de correspondência utilizada.

Agradecemos ao Gaipo todo o esforço gasto neste belíssimo trabalho o qual pode ser consultado, na íntegra, no menu "DOCUMENTOS" do nosso blog.
António Costa

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

AMIZADE

Caros amigos, Camarigos de Madina.
Venho aqui expressar o meu obrigado e gratidão aos meus queridos amigos e companheiros de Madina, o ANTÓNIO COSTA e o ZÉ GAIPO, por neste momento tão dificil e doloroso que passei e passo pelo falecimento do Sr. meu pai, ocorrido no passado dia 17 deste mês de Janeiro, pelas palavras de tanto conforto e carinho que me dispensaram, só possíveis e sentidas no seio de verdadeiros familiares.
É verdade, foi o meu suporte, o esteio da minha familia, em suma o meu herói. Ele foi o meu protector, o meu companheiro, o meu confidente, o meu amigo o Sr. meu Pai.
Zé Gaipo, neste momento de infortúnio, tristeza, mágoa, dor e de saudade, não posso deixar de interiorizar e transcrever este paragrafo do lindo texto que me escreveste: POR MAIS BELAS QUE SEJAM AS PALAVRAS AMIGAS QUE ESCUTAMOS E SABOREAMOS COM O CORAÇÃO PARTIDO, FICAMOS POR VEZES APÁTICOS, SEMPRE DE OLHAR FIXO NOS OLHOS DE QUEM NÃO NOS VÊ, NÃO RESPIRA, NÃO FALA, NÃO SENTE A DOR SOFRIDA DE QUEM FICA, SENTINDO EM CADA DIA A AUSÊNCIA DE ALGUÉM QUE FOI IMPORTANTE PARA MIM E OS MEUS.
Neste momento de tristeza sei que a sua partida vai deixar um vazio nos nossos corações que jamais será prenchido, mas peço ao Senhor que lhe dê o eterno descanço e que a chama eterna o ilumine para o sempre, que Ele o leve para o aconchego dos seus eleitos.
Um forte abraço a todos e em particular ao Gaipo e ao Costa, ficareis no meu coração.
Monteiro ( Manhiça )

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

GUINÉ EM TEMPO DE PAZ - 1974


     (reproduzimos do nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger, da CCS do BART 6523, sediada em  Nova Lamego, o seguinte artigo retirado de algures)

VISITA A MADINA MANDINGA 
PASSEIO SEGURO À BEIRA DO ONDULADO CAPIM
 
Foi um dia memorável! Uma visita amigável à 1ª. Companhia do BART 6523 sediada em Madina Mandinga, apresentou-se como uma viagem antes impensável. As estratégias no terreno estavam definidas. O PAIGC e a nossa tropa haviam estabelecido princípios de entendimento e o medo da picada, e a sua imprevisibilidade, antes constatado, oferecia agora uma segurança absoluta.

Foi a um domingo e já em tempo de Paz que um grupo da CCS, em Nova Lamego (Gabú) e a Companhia destacada em Madina Mandinga, combinaram um jogo de futebol. Dois unimogues com malta que se entregava entretanto a brincadeiras pontuais, e eis-nos perante o grupo disposto a desbravar conteúdos de uma picada onde a ondulação do capim se misturava com árvores de grande porte nascidas na exuberância da densidade do mato.

O resultado final não interessou, tão-pouco ficou registado nas minhas memórias. Não interessa! O único objectivo foi o amplo convívio constatado. O festim decorreu de forma cordial, trocaram-se impressões, comentou-se o último ataque a Madina, apontou-se para o sítio das valas que serviram de protecção aos ilustres soldados e recordou-se os locais onde os foguetões haviam caído. Pelo meio de dois dedos de conversa umas fotos para mais tarde recordar.
Dessa viagem, com o pessoal completamente dispensado das G3, bazuca, ou do morteiro 60, ficaram momentos inolvidáveis passados entre camaradas de armas que contemplavam então a Paz agora sentida em toda a largura do terreno. Recordo, que a dita viagem entre as duas populações distavam cerca de 20kms. Todavia, os quilómetros de picada assumiam-se como um osso duro de roer. Lembro que o percurso dividia-se entre o asfalto (alcatrão) e terra batida.

Revivendo esse já longínquo convívio em terras da Guiné, recordo agora a forma desinteressada como fomos recebidos pelos ilustres anfitriões. Uma recepção extraordinária, uns chutos numa bola já defeituosa, um almoço bem regado, uma cavaqueira que se arrastou ao longo da tarde, uma mesa cheia de bebidas, umas belíssimas canções para animar e, finalmente, as despedidas aos companheiros de Madina que determinou, como foi evidente, o nosso regresso a Gabú.

O Capitão Milº. José Luís, sempre simpático, congratulou-se com a visita, mas foi com o 1º Sargento Brito que dissequei os momentos mais ávidos sentidos pela Companhia ao longo da comissão em Madina. A “talho de foice”, e com toda a justiça o digo, que o 1º Sargento Brito era, e é certamente, um homem de se lhe tirar o chapéu. Gostei dele!

Soube, recentemente, através do ex. Alferes Miliciano António Barbosa, um camarada de armas que integrava o nosso BART 6523 e que pertencia à 2ª Companhia sediada em Cabuca, que o então 1º Sargento Brito está, actualmente, aposentado como Major. Confesso que me congratulo por saber tão feliz notícia. Um abraço, e bem grande, meu Major. A vida, por norma, sorri-nos quando dentro de nós existem factores humanos que suplantam o nosso querer, a nossa vontade e o nosso ego.
(Um brinde com whisky entre o 1º Sargento Guerra e claro, eu, José Saúde)

As tabancas, ao fundo, retratam realidades num espaço distante onde as fortes e medonhas trovoadas se cruzavam com um cacimbo atroz e um arco-ires que se sobrepunha a um horizonte belo mas sempre carregado de incertezas. O calor sufocante hostilizava, também, as nossas vidas.
(três meninas, hoje senhoras, de Madina Mandinga)

(com um “mascote” apadrinhado nessa célebre visita a Madina. Atrás o Cap. José Luís “de costas” e o Alferes Miliciano Santos, da minha Companhia)

Um abraço a todos os camaradas,
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
(transcrito por António Costa)

sábado, 5 de janeiro de 2013

DIA DE REIS - EPIFANIA

O dia de Reis relembrado em Madina Mandinga, no dia 6 de Janeiro de 1974.

(nota introdutória sobre a história dos Reis Magos)
A história dos três Reis Magos do Oriente, em visita ao menino Deus, nascido em Belém, é contada no Evangelho de São Mateus (capitulo 2,9-12). 
Os tradicionais Reis Magos, eram conhecidos como sendo, Melchior, Gaspar e Baltazar.
S. Pedro Crisólogo, explicava: os Magos, nos seus dromedários/camelos, caminharam  do Oriente em direcção a Belém, levando as suas oferendas de, Ouro, Incenso e Mirra. 
Os Magos, representam  ou apontam as três grandes idades da vida: a juventude, a maturidade e a ancianidade. Melchior, representa a velhice, Gaspar, a idade da maturidade e Baltazar, o tempo da juventude.
No contexto das oferendas: «com o Ouro, aceitam Deus Menino como Rei, com o Incenso, reconhecem-n'O como Deus e com a Mirra, exprimem a fé n'Aquele que havia de morrer».
Todos três, chegados ao estábulo ou manjedoura, onde estava o Menino e seus pais, Maria e José, cada qual ofereceu também uma moeda de oiro.
No estilo representativo e figurativo das oferendas, o ouro, é o presente que pertence a Melchior, o Baltazar, o Mago negro, com o cofre, oferece a mirra e o Gaspar, com o turíbulo na mão, leva o incenso. 
Por norma histórica e representativa iconográfica da Adoração dos Magos, eles, como Reis, mostram  o seu estracto social, por isso mesmo, estão vestidos com indumentárias ricas e multicolores, muito próprias e significativas, com mantos e togas em tons de ocre e dourados.
Os presentes oferecidos ao menino Deus, são simbólicos e representativos da sua identidade e missão. 
Na Epifania,
O Tradicional cortejo de Reis
Que os Reis de Társis e das Ilhas
Lhe paguem tributos,
Que os Reis de Sabá e Seba
Lhe ofereçam os seus dons.
Que todos os reis se prostrem diante dele
E as nações todas o sirvam.        (Salmo 71, 10 -11)

Em sequência aos festejos de natal, a minha  memória recordava-me a rotina anual  de participação daquela invocação, em especial o cortejo do dia de Reis.
Eram um cortejo muito rico de tradição local, e era também, um grande chamariz popular, onde variados lugares da ilha se deslocavam para o ver, não só pela riqueza dos vestuários, mas também pela vivência cristã que era muito vivida na época de natal.
Os preparativos eram interessantes. Para além  da confecção das indumentárias que, senhoras habilitadas e disponíveis na arte de costurar, executavam e preparavam os trajes  apropriadas para vestir os figurantes representantes do Antigo e Novo Testamento.
Aliado ao mesmo, preparava-se uma pequena filarmónica de meninos com idades de nove e onze anos.
Depois do natal, lá se procedia diariamente aos ensaios com melodias de tradição natalícia, que eram cantadas através de pequenos instrumentos de latão (em que no bucal, tinha de ser colocado uma rodela de papel de seda), a fim de reproduzir a sonoridade do canto no pequeno instrumento, feito por um latoeiro local.
Todos, eram vestidos a rigor com um fardamento azul e branco, à marinheiro.  
No interior e a meio da igreja,  estava uma grande árvore de natal, (criptoméria, árvore tradicional nos Açores, para ornamento por altura do natal), estava enfeitada com pacotes de bolos secos, figos passados, alfarrobas, bombons de chocolate, embrulhados em papéis de seda de cores variadas, e a complementar a decoração, estavam laranjas e mandarinas.
Junto da árvore, no interior da igreja, o Cortejo em alarido já preparado e ordenado, mostrava muita organização e sequência narrativa do anuncio e nascimento de Jesus Menino.
O Cortejo iniciava-se com os guias anunciadores, um, com cornetim e o outro, com uma estrela guia, ambos sentados sobre cavalos brancos cobertos de panos adamascados. De seguida, os Três Reis Magos  com vistosas capas e coroas douradas, com as suas oferendas bem trabalhadas,  montados em cavalos de cor castanha, lá seguiam o trajectória da estrela guia.
O rosto do Rei preto, era maqueado com rolha de cortiça queimada, para produzir o efeito e brilho necessário.
Os figurantes, profetas do Antigo e Novo Testamento, luxuosamente bem caracterizados e com os devidos adereços indicavam as suas linhagens, davam ideia precisa do seu estracto social da época, conforme descrição plasmada na Sagrada Escritura.
Uma cabana pequena e em forma de andor, preparada com execução profissional, coberta de palha devidamente disposta, e dentro, o Menino Deus, deitado, era transportado aos ombros de meninas que se revezavam.
Em redor da cabana, e em forma de octógono, eram dispostos anjos,  trajando túnicas brancas, rosas, azuis e amarelas, sendo também embelezado com meninos e meninas que, se incorporavam vestidos com trajes garridos e populares, trazendo em suas mãos as mais variadas  oferendas tais como: cestinhos de ovos, galinhas, pombas, frutos da época, laranjas, tangerinas, variados doces e bolos secos.
A complementar o cortejo, seguia a pequena banda de música dos meninos, e a  fechar, iam as figuras da alta nobreza da época, acompanhados pelos seus pajens e aios da corte romana.
No Final do cortejo, uma filarmónica, executava durante todo o trajecto, peças curtas de natal, muito variadas e conhecidas, de modo a que as pessoas locais, visitantes e forasteiros, pudessem acompanhar com suas vozes, expressando assim o calor humano e o amor, que os festejos natalícios fazem conduzir nos seios familiares.
Ao entrar na igreja, todas as oferendas eram recolhidas e entregues aos organizadores, para uma arrematação final, para ajudar a custear as muitas despesas e trabalhos.
Foi assim que eu passei o dia de Reis de 1974, em Madina, a recordar o meu Dia de Reis, na minha Ilha.
Um abraço para todos os camarigos
José Graça Gaipo 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Próspero Ano Novo de 2013

Ponta Delgada- AÇORES
01-01-2013
Aos amigos, Leões de Madina Mandinga

A vida, é como uma bola colorida, cheia de incertezas, dúvidas e surpresas que o homem não controla e desconhece no tempo.
A grande certeza da vida, está na Fé e na Esperança de que, o futuro melhore em qualidade e quantidade de Saúde, Paz, Amor e Felicidade.
Por mais que os tempos possam mudar, há valores que permanecem, como o verdadeiro valor do Natal.
A amizade que oferecemos num abraço, a esperança que as nossas atitudes podem depositar em alguém, a partilha de conversas em torno de uma mesa, os sorrisos que se recebem e se retribuem.
A verdade, é que, hoje e mais do que nunca, uma mensagem cheia de significado, tem mais valor do que uma árvore cheia de presentes e pequenos embrulhos bem decorados.
Que o novo ano de 2013, traduza a sua segurança em certezas para todos, de modo a possibilitar soluções para que cada um possa construir um futuro melhor, e torná-lo automaticamente dignificante e mais fácil.
A Todos os amigos
                    Votos de Um 2013 Muito Próspero 
(e não 2103 como por lapso publicado e simpaticamente, e com graça, comentado pelo nosso amigo Freitas-enfermeiro)
                            José Graça Gaipo

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

FELIZ ANO 2013

CAMARIGOS DE MADINA

Caros companheiros, alguém disse um dia "A RIQUEZA DE UM HOMEM, MEDE-SE PELA QUANTIDADE E QUALIDADE DOS AMIGOS QUE TEM"  -  obrigado §POR FAZEREM PARTE DA MINHA RIQUEZA§.

Familia de Madina, quero para os bons momentos desejar-vos GRATIDÃO; para os maus momentos ESPERANÇA; para cada dia UMA ILUSÃO; e sempre, mas sempre FELICIDADE.
 
Que o Novo Ano que ora se aproxima tenha o dão de materializar todos os vossos sonhos e ansiedades em REALIDADES.  Sejam felizes e votos de um  BOM ANO
Monteiro ( Manhiça )

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Madina Mandinga-Dia de Natal 1973



25 de Dezembro de 1973
O Meu Natal
 por José Graça Gaipo
A ceia de natal ou consoada havia terminado.
A meia-noite, com a sua escuridão e sem brilho inóspito, despertou sem cantos natalícios, sem anúncios instrumentais sonoros, sem anjos, sem pastores e sem algazarras festivas.
Nos campanários, os sinos, não soaram seus repicos especiais e festivos para a tradicional festividade.
Tudo estava distante sem cor, sem brilho e som. O movimento da noite parou para dar lugar ao escuro do silêncio que cada um e à sua maneira guardou na arca do seu coração.
O silêncio  quebrou o tempo de espera e abriu o tesouro que o coração tinha guardado, para então, expor o seu natal.
A caserna, estava escurecida ao claro som de uma pequena chama remetida a um canto para evitar, na distância nocturna, qualquer atenção que fora do tempo retirasse ao meu pensamento a tranquilidade necessária à reposição do meu natal com presépio, pastores e Reis magos.

Assim, e em lugar recatado, a um canto do meu quarto, havia preparado o meu cadeirão feito de rijas tiras de palmeira, comprado a um nativo que o havia feito. Decorei-o com dois bonitos e emaranhados panos de tradição  africana. predispondo-me ao convite para, comodamente, sentar-me e passar a noite mais esperada em terras da Guiné.
Bem recostado no silêncio da noite, de olhos abertos e, semi-cerrados de vez em quando, reflectia sobre aquele que seria o meu  natal, sem presépio e isento de figuras.
Sentado, imaginava e cantava no interior de mim mesmo as melodias de Natal, carregadas de mensagens e de sentimentos que a tradição nunca apagou nem apagará o meu imaginário de vivências natalícias.

Contemplando os posters de cartolina branca, executados com singelos e simples traços a negro, debruado a vermelho, colados a uma pequena e improvisada estante de parede, onde reproduziam ou assinalavam motivos de mensagem invocatória de “Boas Festas e Feliz Natal”.
Ao meu imaginário, faltava a minha construção criativa, o ambiente próprio, o presépio que, desde menino em minha casa, preparava de feição com a minha mãe e irmãos, e que mais tarde, já adulto, ficou à minha responsabilidade.

Naquela noite, a quietude assolava o meu coração que questionava as muitas e supostas interrogativas que, o tempo proporcionava na rotina das minhas tradições e vivências natalícias.
 
 [o meu presépio na minha casa da ilha]
Será, que na ilha e em casa, a minha ausência não deu lugar ao meu presépio?
Será,  que as luzes e a árvore de natal, foram recostadas  e deixaram de ter lugar?
Será, que hoje, e nesta noite  de natal, não brindaram a mijinha do Menino, em casa da família e amigos?
E neste interrogar de coisas e lembranças, sempre a ocupar o meu espaço espiritual,  passei  ao silêncio, a cantarolar o que do mais belo canto e encanto musical natalício,  me fazia enriquecer, desenhando no meu espaço imaginário,  o lugar à construção de um fundo escuro, sobressaindo uma tosca janela sem esquadria, de fingidos vidros, pincelados de azul e estrelas reluzentes e brilhantes, reflectindo a luz em seus  umbrais, coloridos e pintados de tons quentes, de contornos terra, que os tornavam relevantes e expressivos de arte, antecedido e ornamentado por um pórtico  desalinhado e tosco, onde estariam dispostas, as figuras  principais e representativas, recriando em formato de quadro, um género de fresco, como que retratando um cenário, da noite, em Belém de Judá.

Como elemento decorativo, não poderia faltar a célebre cidade de Belém, cartonada em tons  e tamanhos proporcionados às personagens figurativas imaginadas, fazendo sobressair os animais como elementos indispensáveis ao ambiente de um estábulo que acolheu a família de Nazaré.
O chão do presépio, ornamentado de ervilhaca, milho, trigo, alpista e outros cereais que, por tradição , são semeados em pequenos recipientes de barro, em véspera de Santa Luzia, dia 12 de Dezembro, para que na noite de natal, se mostrem viçosos e orvalhados de pequenas gotas de água transparentes que, colocados ou dispostos em espaços assimétricos, recrie com alguma beleza natural, o símbolo da vida, e no brilho da noite, a pequena chama intercalar de pequenos lampadários  alimentados por uma acendalha de pavio, sobre o azeite.
Como foi diferente a minha noite de natal, que na distância teve um lugar e um nascimento diferente dos muitos passados em seio familiar.
No escuro da noite, a ausência do luzeiro astro teimava em esconder a sua luz para que  não brilhasse aos olhos do coração humano.

Em cada um de nós, um sentimento novo e saudoso nasceu, não em estábulo, mas   num aquartelamento rodeado de arame farpado, com focos de luz, direccionados para o exterior, na intenção de encandear possíveis visitantes nocturnos, inimigos  inesperados, cheios de forças bélicas.
A noite de natal, avançava, sossegada e desprovida de sobressaltos.
O despontar da aurora,  fazia aproximar o despertar  do dia, em que o brilho da luz solar, de novo voltava na sua rotina intensa para clarear  e aquecer o solo de Madina Mandinga.
Suas gentes, com rostos alegres, intencionados de gestos e desejos de felicitações, Boas Festas, trajavam  aperaltados em vistosas roupagens de há muito guardadas  para um momento muito especial, “o Tempo do Natal”.

O novo dia, pareceu diferente em muitos aspectos, mas muito igual nos formalismos de responsabilidade  diária, atribuído de maior sentido e cuidado de alerta a perigos  vários e  de intervenção inesperada.
A atmosfera local, parecia aromática e festiva, mas nos rostos, os olhares traziam  alguma apreensão de saudosismo, colocando o pensamento à distância numa atitude de espera, qual prenda de natal, não recebida em tempo certo, viesse preencher o vazio da Noite Feliz, sem pinheirinho de natal, despido de coloridos e graciosos ornamentos.
Na minha contemplação imaginária, os cânticos natalícios, circundavam em velocidade o mesmo espírito, onde as várias melodias se sobreponham e, de forma especial, as mais tradicionais “Adeste Fideles, Noite Feliz, Brilhou na Noite Escura, Noite Gelada Menino”, etc....
De boca cerrada e em silêncio, de olhos lacrimosos e fixos no imaginário, foram entoadas as mais diversas harmonias, cada uma, esperando a tonalidade da sua mensagem.
O Canto natalício, preencheu o meu vazio da noite e dia de Natal, na espera do novo ano, que a todos trouxesse a Paz há muito tempo invocada e desejada pela humanidade, e que o ciclo do natal, tivesse a sua continuidade com a celebração da festa da Epifania, ou dos Reis, e finalizar com as estrelas, o ciclo natalício, em que o profeta Semião, ao tomar o Menino Deus em suas mãos, pronunciou:
Senhor, hoje, os meus olhos viram a Salvação.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

África-Madina Mandinga-Guiné


 por José Graça Gaipo 
A Véspera de Natal
24 de Dezembro de 1973

Em Madina Mandinga, o raiar da aurora, despontou em crepúsculo, pincelado de tons solares quentes, como que a esconder o fim do ciclo do Advento.
A manhã, parecia uma autêntica festa boreal anunciando o grande luzeiro de há muito proclamado pelo  profeta Isaías.
A manhã do dia 24, parecia alongar-se no tempo e, ansiosos, em azáfama desenfreada de rostos sorridentes, pronunciavam de suas bocas, conversas carregadas de sentimentos e lembranças natalícias.
No espírito de cada um, transparecia alguma preocupação, a data de 24, a qual, se pretendia festejar  e celebrar sem qualquer tropelia bélica em tempo e local inesperado.
Entre a malta, os avisos eram visíveis de  preocupação, porque a vigilância, além de importantíssima, merecia  atenção redobrada, cuidado e zelo, considerando-se os possíveis excessos de cada um, na forma como festejaria  o Natal.

A tarde, esta começava  com uma acção humana de movimentos e serviços de naturezas diferentes, mas comuns, enquanto outros, eram encarregues da organização dos  haveres comestíveis em preparação, pelo que outros ainda, ajustavam as mesas, ditadas à decoração com as diversas iguarias da época, já preparadas e recebidas, dos mais diferentes lugares.
Os estados de espírito humano, eram notórios e, revelavam maior afectividade e companheirismo comunitário, em que pronunciavam as cordiais e milenárias palavras de - Boas Festas e Feliz Natal.

O pôr-do-sol, na zona de Madina Mandinga, aproximou-se  e esvaíu-se no horizonte para dar lugar ao luz que fusco de mais uma noite, caracterizada de  especial relevância, que a distância do tempo /e fuso horário, anunciaria bem cedo, a vigília do natal.
Na parada do aquartelamento, era bem visível o aparato desigual de movimentos, de partilha invulgar, não havendo sinais de prendas  nem  embrulhos coloridos de mão em mão, como é usual e costume na nossa tradição portuguesa naquela noite, mas apenas, a preparação de  uma organizada e especial ceia de natal em hora antecipada, bem recheada de iguarias alimentares de, cabrito assado, galinha, gazela, e outros animais de criação doméstica, e campestre, adquirida de forma amiga e conjunta.

Entre o final da tarde e o anoitecer, lá se iniciou o festado jantar especial, para que a passagem  da escura noite de 24 para 25, fosse  brindada na alegre saudação  ao Deus Infante nascido.

A “messe de oficiais e sargentos”,  de Madina Mandinga, também não saíra da tonalidade festiva, tendo as mesas decoradas  e apetrechadas de iguarias ligadas à tradicional celebração  natalícia.
Dada a diferença horária, de acordo com o rigor e enquadramento do fuso horário da Guiné, eram indispensáveis os mais cautelosos cuidados de redobrada atenção, pois o tempo festivo  que atravessávamos, era propício à ocasião bélica.
Com alguma emoção e tranquilidade, o Capitão Miliciano José Luís Borges Rodrigues, e na forma improvisada, de mensagem e significado, teceu algumas palavras que tornaram aquele momento muito festivo.
O tom  solene e especial da sua mensagem, de certo que, a todos tocou bem fundo o coração do homem, que só a vergonha e respeito humano, deixou todos de cabisbaixos por alguns momentos, para que as lágrimas do desejo e saudade, não turvassem os olhares  brilhantes e humedecidos das lágrimas que escorreram em gota suave e tranquila  face do rosto, de cada um.
Após aquele momento introdutório, os olhares cruzados, com sorrisos nos lábios e de frontes erguidas, de copos na mão, foi servido o Gin tónico, com gelo e água perrier, brindando-se de forma particular aos mais variados desejos, interiormente invocados.
Fez-se uma pausa para a degustação dos aperitivos, seguindo-se a tão desejada ceia de natal, a qual, foi participada com a maior alegria no comes e bebes, mas também partilhada  e confraternizada com a necessária serenidade e responsabilidade de quantos a celebravam.
Chegadas as zero horas, dentro da simplicidade  sem devaneios e excessos, brindou-se por algum tempo a  Grande e Bela Noite de Natal, em Madina Madinga.
Após este momento precioso e desigual, deu-se continuidade à rotina da noite reforçando os lugares estratégicos com o descanso de algumas horas de sono, até que raiasse a aurora do novo dia.
Foi assim o primeiro Natal em Madina Mandinga, celebrado na data de 24/25 de  Dezembro de 1973 (já lá vão 39 anos).