terça-feira, 19 de março de 2013

DIA DO PAI

Camarigos de Madina;
Nós companheiros que somos pais e avós, também temos ou tivemos pai e, eles mais do que nós no contexto por onde passamos e nos conhecemos, sofreram muito, por isso mesmo, estejam onde estiverem, neste dia de comemoração devemos-lhes uma lembrança, um carinho, um dizer AMO-TE PAI.
MUITO LHES DEVEMOS E POUCO LHES DEMOS.
Camarigo, o amor de um pai é como o brilho das estrelas, mesmo longe, nós vemos e sentimo-las.
Amigo, o quanto é querido e gostoso sentir e ver os cabelos grisalhos do nosso pai e saber que lá estão depositados os arquivos do passado das nossas infâncias.
Para todos os Pais da familia de Madina um abraço e um até sempre.
Bem hajam.
Monteiro ( Manhiça )

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Trio/Quinteto

A Tertúlia de Madina Mandinga
Recordar, é ter presente na memória, os nossos momentos que hoje fazem história. É ter sentido de fazer conhecer aos nossos (filhos, netos e família), como passávamos os tempos, as horas, os dias, as semanas e os meses num país e num lugar, que a nossa memória aos poucos vai deixando de registar.

Hoje, os tempos são outros, a tecnologia e a ciência fizeram ultrapassar muitas coisas, até mesmo o conhecimento, a mentalidade e o relacionamento das pessoas.

Em Madina Mandinga, dada a situação local geográfica, era de todo impossível adquirir em suporte de papel, qualquer meio informativo de ocasião diária, semanal ou quinzenal, e em que muitos de nós, pudéssemos desfrutar de notícias e informações de utilidade em geral.
Apesar de não haver um quiosque de vendas de revistas e jornais, as noticias mais correntes, e comuns, eram as que chegavam através do correio particular e individual, que depois circulavam em forma de cadeado, mas aumentado.

A expectativa de receberem notícias era notória da parte do maralhal, que em silêncio, e bem atentos à chegada da coluna do correio, estavam prontos à chamada nominativa para receberem os célebres aerogramas ”correspondência gratuita, de cor amarela parda”.
Depois da correspondência na sua posse, recolhiam às casernas ou lugares habituais, para em silêncio e de olhos bem fitos no papel e sem qualquer olhar ou perturbação alheia, saborearem a leitura da(s) sua(s) missiva(s).
Cá fora, e do lado da secretaria que confinava com a caserna e os balneários, estava sempre em horário adequado e em tempo combinado, o trio/quinteto que na minha memória registei e denominei de tertúlia, que por norma trajavam vestes habituais: - calção verde tropa curto, botas de couro ou de lona, e por vezes óculos escuros, com cigarro a arder por entre os dedos.
Para lhes dar um certo ar de presença, por vezes usavam um tipo vara pequena, apelativa de um movimento rotativo ou de enrolamento com os dedos, enquanto falavam de diversificados assuntos de ordem privada ou de natureza pública.
Normalmente, e em movimento rotativo da cabeça, miravam de alto a baixo ou olhavam de soslaio, a(s) o(s) transeunte(s) passeante(s), em direcção a ambos os lados da via, direita/esquerda.
Sem conhecer o programa de cada momento da tertúlia, depreendia com alguma curiosidade que a temática da conversa diária, seria interessante e diversa, e sempre com assunto em novelo, intercalada de contos de fadas crescidas, histórias adultas, leituras de revistas fora do prazo, mas com assuntos interessantes e actualizados para o meio, etc., etc., etc., que, por sua vez ocasionavam as mais diversas interpretações deixando de lado, talvez, as anedotas, mas o facto é que lá sorriam e gracejavam com uso de gargalhada aberta e divertida.
Hoje, ao recordar aqueles momentos, em lugar e espaço desenquadrado dos demais escolhidos pelas tertúlias de vilas e cidades culturais, pois eles, nem tinham sala, eram desprovidos de ambiente próprio que, nem disponham de mobiliário adequado, sem cadeira, sem mesas, onde pudessem poisar um copo de whisky com gelo e água perrier, ou uma chávena de café bem negro e amargo, pois o espaço era exíguo e estreito, um simples passeio de rua, mas que se apropriava para uma passagem de tempo de análise e de variadas situações de vida ou momentos quotidianos de orla positiva ou menos boa.
Quem de perto lá passava, cruzava olhares àquela rotina que nem se atrevia em indagar o que quer que fosse, para não interromper ou dificultar a fluidez da conversa ou acontecimento passado.
Causou-me alguma estranheza em todo o tempo que lá andei, e a minha percepção na altura era, de que, momentos culturais e oportunos nunca tivessem motivado com algum entusiasmo e determinação a tertúlia, que por norma, a um canto da mesa se punham, sem perceberem e sem entenderem a minha mensagem.
Sei, que em muitos momentos, terminada a minha palestra cantante me diziam:
- gostei de ouvir, mesmo assim - mas dita com expressão de que não teria convencido nada com o meu canto de palavra interventiva.
Algo mingou de certeza, de uma parte ou da outra, ou de ambas. O circuito da comunicação não funcionou. A mensagem, ou não chegou a ser emitida e em boas condições, ou não foi captada como devia. É isto o que sucede na maioria das vezes, na transmissão da mensagem pretendida.
Para a maior parte da malta, fui actor e não mensageiro. Cumpri o meu número de programa solicitado, mas não devo ter deixado nada de novo nem motivador.
Fizera-me ouvir, mas não escutar, na medida em que ouvir é questão de som, mas escutar é afanosa procura da ideia através do som ou, até mesmo, do ruído.
Foi esta a impressão com que fiquei depois dos muitos momentos culturais. “Gostei de ouvir… mas não convenceu”.
Recordamos com saudades esses momentos culturais e alguma coisa ficou. Sabemos que ainda hoje, em todos os encontros/convívios, ao encerrar a confraternização é cantado, por todos, o Hino da Companhia.
José Graça Gaipo

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um Manjaco em solo Mandinga

Camarigos de Madina,
Em certos dias e em certos momentos, quando deixamos o nosso pensamento entrar e abrir o baú das nossas recordações, lembramo-nos de alguns episódios que hoje, e após 40 anos, ficamos admirados e interrogamo-nos, como é e foi possível?
É verdade, são peripécias que ainda hoje nos fazem recordar com saudade e nostalgia os momentos que nos marcaram, não por serem maus, antes pelo contrário, mas são cenas que nos parecem surreais.
Esta é a história do Armando, o “Manjaco”.
O Armando Manjaco era uma figura típica de Madina, ainda hoje estou por perceber o porquê da sua vivência em chão “Mandinga”, pois ele pertencia à etnia dos Manjacos. Certo é que era um faz tudo. O rapaz já adulto ajudava ora na cozinha, na padaria, em todo o lado, era um moço de recados.
Bem, mas no essencial é que existia por lá uma horta que era conhecida por a “horta do Tibrito”. Esse espaço verdejante e viçoso ficava nas imediações do depósito da água.
Dessa hortinha eram colhidos alguns legumes que por serem poucos, não dava para muito, lá se ia mitigando a carência de legumes frescos.
Esse espaço agrícola era tratado por um soldado que, com toda a certeza punha todo o seu saber e esmero na horta, até por uma questão pessoal mas também para agradar ao 1º Ti` Brito.  
Ora acontece que, tal como com todas as hortas, tinha de ser regada diariamente e quem tinha essa incumbência era o nosso personagem Armando Manjaco que, hora a hora, lá ia regando para que as hortaliças estivessem sempre verdejantes e a produção fosse mais rápida. 
O pobre do homem, para proceder à rega, tinha de tirar a água de um poço de alguma profundidade, com uma lata que talvez levasse 2 litros de água. Imaginemos agora quantas vezes ele tinha de mandar ao fundo do poço a lata, agarrada a uma cordita, para regar uma área com uns bons metros quadrados! Eram umas boas horas de rega.
O nosso amigo Armando gostava de ir passear até Nova Lamego e Bafatá para ver as montras e beber umas cervejitas (pagas pelos nossos soldados). Servia-se dos nossos transportes para viajar e como as colunas se realizavam logo pelo nascer do sol, o coitadito do indivíduo que dormia por lá em qualquer sítio, tinha que se levantar pelas 2 da manhã para regar a horta e assim estaria disponível para embarcar na nossa coluna. Ele só iria se estivesse tudo bem regado e após inspecção do Ti Brito. Era uma espécie de prémio que lhe era concedido.
Era um bom homem, gostava de beber, apreciava e bebia da água de Lisboa (aguardente). Algumas vezes bebeu álcool tingido com vinho tinto, receita especial e confeccionada pelo nosso Pastilhas que se prestava a este tipo de brincadeiras.
Um Manjaco muito educado, muito obediente, um “cromo” de Madina. Penso que muitos se lembrarão dele.
Um abraço
Monteiro (Manhiça)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Enquadramento histórico da Guiné

Do nosso amigo José Graça Gaipo recebemos um artigo, muito completo, sobre a história da Guiné.
O desenvolvimento de todo este trabalho requereu muita pesquisa e, inclusive, foi ainda beber ensinamentos à nossa instrução recebida no Quartel de Penafiel (RAL5), aquando da formação do nosso Batalhão.
O texto refere-se à descoberta da Guiné, à sua situação geográfica, ao clima, ao relevo, à sua vegetação e aos rios mais importantes. 
No aspecto humano debruça-se sobre os usos e costumes das populações, das suas religiões e das diferentes etnias. A organização administrativa, as principais cidades, a saúde pública e a rede escolar, também merecem uma análise. E neste campo das escolas salienta a importância dos nosso militares no ensino dos guineenses.
No aspecto económico fala dos recursos agrícolas e industriais, o comércio, as pescas, a pecuária e as vias de comunicação.
No seu trabalho tem ainda uma referência à legislação militar vigente à época. Aborda os vencimentos e gratificações dos nosso militares na guerra do ultramar e o tipo de correspondência utilizada.

Agradecemos ao Gaipo todo o esforço gasto neste belíssimo trabalho o qual pode ser consultado, na íntegra, no menu "DOCUMENTOS" do nosso blog.
António Costa

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

AMIZADE

Caros amigos, Camarigos de Madina.
Venho aqui expressar o meu obrigado e gratidão aos meus queridos amigos e companheiros de Madina, o ANTÓNIO COSTA e o ZÉ GAIPO, por neste momento tão dificil e doloroso que passei e passo pelo falecimento do Sr. meu pai, ocorrido no passado dia 17 deste mês de Janeiro, pelas palavras de tanto conforto e carinho que me dispensaram, só possíveis e sentidas no seio de verdadeiros familiares.
É verdade, foi o meu suporte, o esteio da minha familia, em suma o meu herói. Ele foi o meu protector, o meu companheiro, o meu confidente, o meu amigo o Sr. meu Pai.
Zé Gaipo, neste momento de infortúnio, tristeza, mágoa, dor e de saudade, não posso deixar de interiorizar e transcrever este paragrafo do lindo texto que me escreveste: POR MAIS BELAS QUE SEJAM AS PALAVRAS AMIGAS QUE ESCUTAMOS E SABOREAMOS COM O CORAÇÃO PARTIDO, FICAMOS POR VEZES APÁTICOS, SEMPRE DE OLHAR FIXO NOS OLHOS DE QUEM NÃO NOS VÊ, NÃO RESPIRA, NÃO FALA, NÃO SENTE A DOR SOFRIDA DE QUEM FICA, SENTINDO EM CADA DIA A AUSÊNCIA DE ALGUÉM QUE FOI IMPORTANTE PARA MIM E OS MEUS.
Neste momento de tristeza sei que a sua partida vai deixar um vazio nos nossos corações que jamais será prenchido, mas peço ao Senhor que lhe dê o eterno descanço e que a chama eterna o ilumine para o sempre, que Ele o leve para o aconchego dos seus eleitos.
Um forte abraço a todos e em particular ao Gaipo e ao Costa, ficareis no meu coração.
Monteiro ( Manhiça )

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

GUINÉ EM TEMPO DE PAZ - 1974


     (reproduzimos do nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger, da CCS do BART 6523, sediada em  Nova Lamego, o seguinte artigo retirado de algures)

VISITA A MADINA MANDINGA 
PASSEIO SEGURO À BEIRA DO ONDULADO CAPIM
 
Foi um dia memorável! Uma visita amigável à 1ª. Companhia do BART 6523 sediada em Madina Mandinga, apresentou-se como uma viagem antes impensável. As estratégias no terreno estavam definidas. O PAIGC e a nossa tropa haviam estabelecido princípios de entendimento e o medo da picada, e a sua imprevisibilidade, antes constatado, oferecia agora uma segurança absoluta.

Foi a um domingo e já em tempo de Paz que um grupo da CCS, em Nova Lamego (Gabú) e a Companhia destacada em Madina Mandinga, combinaram um jogo de futebol. Dois unimogues com malta que se entregava entretanto a brincadeiras pontuais, e eis-nos perante o grupo disposto a desbravar conteúdos de uma picada onde a ondulação do capim se misturava com árvores de grande porte nascidas na exuberância da densidade do mato.

O resultado final não interessou, tão-pouco ficou registado nas minhas memórias. Não interessa! O único objectivo foi o amplo convívio constatado. O festim decorreu de forma cordial, trocaram-se impressões, comentou-se o último ataque a Madina, apontou-se para o sítio das valas que serviram de protecção aos ilustres soldados e recordou-se os locais onde os foguetões haviam caído. Pelo meio de dois dedos de conversa umas fotos para mais tarde recordar.
Dessa viagem, com o pessoal completamente dispensado das G3, bazuca, ou do morteiro 60, ficaram momentos inolvidáveis passados entre camaradas de armas que contemplavam então a Paz agora sentida em toda a largura do terreno. Recordo, que a dita viagem entre as duas populações distavam cerca de 20kms. Todavia, os quilómetros de picada assumiam-se como um osso duro de roer. Lembro que o percurso dividia-se entre o asfalto (alcatrão) e terra batida.

Revivendo esse já longínquo convívio em terras da Guiné, recordo agora a forma desinteressada como fomos recebidos pelos ilustres anfitriões. Uma recepção extraordinária, uns chutos numa bola já defeituosa, um almoço bem regado, uma cavaqueira que se arrastou ao longo da tarde, uma mesa cheia de bebidas, umas belíssimas canções para animar e, finalmente, as despedidas aos companheiros de Madina que determinou, como foi evidente, o nosso regresso a Gabú.

O Capitão Milº. José Luís, sempre simpático, congratulou-se com a visita, mas foi com o 1º Sargento Brito que dissequei os momentos mais ávidos sentidos pela Companhia ao longo da comissão em Madina. A “talho de foice”, e com toda a justiça o digo, que o 1º Sargento Brito era, e é certamente, um homem de se lhe tirar o chapéu. Gostei dele!

Soube, recentemente, através do ex. Alferes Miliciano António Barbosa, um camarada de armas que integrava o nosso BART 6523 e que pertencia à 2ª Companhia sediada em Cabuca, que o então 1º Sargento Brito está, actualmente, aposentado como Major. Confesso que me congratulo por saber tão feliz notícia. Um abraço, e bem grande, meu Major. A vida, por norma, sorri-nos quando dentro de nós existem factores humanos que suplantam o nosso querer, a nossa vontade e o nosso ego.
(Um brinde com whisky entre o 1º Sargento Guerra e claro, eu, José Saúde)

As tabancas, ao fundo, retratam realidades num espaço distante onde as fortes e medonhas trovoadas se cruzavam com um cacimbo atroz e um arco-ires que se sobrepunha a um horizonte belo mas sempre carregado de incertezas. O calor sufocante hostilizava, também, as nossas vidas.
(três meninas, hoje senhoras, de Madina Mandinga)

(com um “mascote” apadrinhado nessa célebre visita a Madina. Atrás o Cap. José Luís “de costas” e o Alferes Miliciano Santos, da minha Companhia)

Um abraço a todos os camaradas,
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
(transcrito por António Costa)

sábado, 5 de janeiro de 2013

DIA DE REIS - EPIFANIA

O dia de Reis relembrado em Madina Mandinga, no dia 6 de Janeiro de 1974.

(nota introdutória sobre a história dos Reis Magos)
A história dos três Reis Magos do Oriente, em visita ao menino Deus, nascido em Belém, é contada no Evangelho de São Mateus (capitulo 2,9-12). 
Os tradicionais Reis Magos, eram conhecidos como sendo, Melchior, Gaspar e Baltazar.
S. Pedro Crisólogo, explicava: os Magos, nos seus dromedários/camelos, caminharam  do Oriente em direcção a Belém, levando as suas oferendas de, Ouro, Incenso e Mirra. 
Os Magos, representam  ou apontam as três grandes idades da vida: a juventude, a maturidade e a ancianidade. Melchior, representa a velhice, Gaspar, a idade da maturidade e Baltazar, o tempo da juventude.
No contexto das oferendas: «com o Ouro, aceitam Deus Menino como Rei, com o Incenso, reconhecem-n'O como Deus e com a Mirra, exprimem a fé n'Aquele que havia de morrer».
Todos três, chegados ao estábulo ou manjedoura, onde estava o Menino e seus pais, Maria e José, cada qual ofereceu também uma moeda de oiro.
No estilo representativo e figurativo das oferendas, o ouro, é o presente que pertence a Melchior, o Baltazar, o Mago negro, com o cofre, oferece a mirra e o Gaspar, com o turíbulo na mão, leva o incenso. 
Por norma histórica e representativa iconográfica da Adoração dos Magos, eles, como Reis, mostram  o seu estracto social, por isso mesmo, estão vestidos com indumentárias ricas e multicolores, muito próprias e significativas, com mantos e togas em tons de ocre e dourados.
Os presentes oferecidos ao menino Deus, são simbólicos e representativos da sua identidade e missão. 
Na Epifania,
O Tradicional cortejo de Reis
Que os Reis de Társis e das Ilhas
Lhe paguem tributos,
Que os Reis de Sabá e Seba
Lhe ofereçam os seus dons.
Que todos os reis se prostrem diante dele
E as nações todas o sirvam.        (Salmo 71, 10 -11)

Em sequência aos festejos de natal, a minha  memória recordava-me a rotina anual  de participação daquela invocação, em especial o cortejo do dia de Reis.
Eram um cortejo muito rico de tradição local, e era também, um grande chamariz popular, onde variados lugares da ilha se deslocavam para o ver, não só pela riqueza dos vestuários, mas também pela vivência cristã que era muito vivida na época de natal.
Os preparativos eram interessantes. Para além  da confecção das indumentárias que, senhoras habilitadas e disponíveis na arte de costurar, executavam e preparavam os trajes  apropriadas para vestir os figurantes representantes do Antigo e Novo Testamento.
Aliado ao mesmo, preparava-se uma pequena filarmónica de meninos com idades de nove e onze anos.
Depois do natal, lá se procedia diariamente aos ensaios com melodias de tradição natalícia, que eram cantadas através de pequenos instrumentos de latão (em que no bucal, tinha de ser colocado uma rodela de papel de seda), a fim de reproduzir a sonoridade do canto no pequeno instrumento, feito por um latoeiro local.
Todos, eram vestidos a rigor com um fardamento azul e branco, à marinheiro.  
No interior e a meio da igreja,  estava uma grande árvore de natal, (criptoméria, árvore tradicional nos Açores, para ornamento por altura do natal), estava enfeitada com pacotes de bolos secos, figos passados, alfarrobas, bombons de chocolate, embrulhados em papéis de seda de cores variadas, e a complementar a decoração, estavam laranjas e mandarinas.
Junto da árvore, no interior da igreja, o Cortejo em alarido já preparado e ordenado, mostrava muita organização e sequência narrativa do anuncio e nascimento de Jesus Menino.
O Cortejo iniciava-se com os guias anunciadores, um, com cornetim e o outro, com uma estrela guia, ambos sentados sobre cavalos brancos cobertos de panos adamascados. De seguida, os Três Reis Magos  com vistosas capas e coroas douradas, com as suas oferendas bem trabalhadas,  montados em cavalos de cor castanha, lá seguiam o trajectória da estrela guia.
O rosto do Rei preto, era maqueado com rolha de cortiça queimada, para produzir o efeito e brilho necessário.
Os figurantes, profetas do Antigo e Novo Testamento, luxuosamente bem caracterizados e com os devidos adereços indicavam as suas linhagens, davam ideia precisa do seu estracto social da época, conforme descrição plasmada na Sagrada Escritura.
Uma cabana pequena e em forma de andor, preparada com execução profissional, coberta de palha devidamente disposta, e dentro, o Menino Deus, deitado, era transportado aos ombros de meninas que se revezavam.
Em redor da cabana, e em forma de octógono, eram dispostos anjos,  trajando túnicas brancas, rosas, azuis e amarelas, sendo também embelezado com meninos e meninas que, se incorporavam vestidos com trajes garridos e populares, trazendo em suas mãos as mais variadas  oferendas tais como: cestinhos de ovos, galinhas, pombas, frutos da época, laranjas, tangerinas, variados doces e bolos secos.
A complementar o cortejo, seguia a pequena banda de música dos meninos, e a  fechar, iam as figuras da alta nobreza da época, acompanhados pelos seus pajens e aios da corte romana.
No Final do cortejo, uma filarmónica, executava durante todo o trajecto, peças curtas de natal, muito variadas e conhecidas, de modo a que as pessoas locais, visitantes e forasteiros, pudessem acompanhar com suas vozes, expressando assim o calor humano e o amor, que os festejos natalícios fazem conduzir nos seios familiares.
Ao entrar na igreja, todas as oferendas eram recolhidas e entregues aos organizadores, para uma arrematação final, para ajudar a custear as muitas despesas e trabalhos.
Foi assim que eu passei o dia de Reis de 1974, em Madina, a recordar o meu Dia de Reis, na minha Ilha.
Um abraço para todos os camarigos
José Graça Gaipo