segunda-feira, 29 de abril de 2013

A noite de 14Set1973, em Madina

Todos nos lembramos daquele início de noite de 14SET1973, em Madina Mandinga. Acontecia o 1º ataque  ao nosso aquartelamento. 
Os velhinhos tinham abalado uns dias antes e, quase de surpresa, os piriquitos lá começaram a "embrulhar". Os primeiros instantes foram de alguma confusão, como é natural. Mas rapidamente todos os combatentes de Madina assumiram as suas responsabilidades e a situação foi de imediato controlada. Passados 7 minutos do início do ataque já o IN se punha em fuga, deixando algum material no local.
Felizmente não resultaram danos físicos nas nossas tropas. Apenas danos materiais e a perda de alguns bidões de vinho..., que não se bebeu.
Foi a primeira vez que ficamos debaixo de fogo e felizmente correu tudo bem. Muito se deve ao facto dos nossos homens, terem por hábito, ficarem à conversa junto e ao longo das valas, no início da noite e até cerca das 23H30. Esta era sempre uma recomendação do nosso Capitão. 
Todo este episódio de guerra está descrito no "Relatório da Flagelação IN a Madina" elaborado na altura.  Nele se narra o que aconteceu nessa noite e no dia seguinte.
Um exemplar desse importante relatório encontra-se disponível no nosso blog em "Documentos", onde pode ser consultado. Embora a cópia não esteja nas melhores condições, todavia com alguma concentração consegue-se ler todo o texto.
Agradecemos ao nosso amigo Capitão Zé Luís a disponibilidade deste relatório.
António Costa

sexta-feira, 12 de abril de 2013

OLHAR MADINA MANDINGA

Descrição física e ambiente de Madina
Deixado o Destacamento de DARA, da responsabilidade e comando da 1ª Companhia BART 6523, entramos em estrada asfaltada e, após percorrer cerca de 5Kms, e num desvio, encontramos à direita um caminho de terra batida, que praticamente era picada, para manter as seguranças solicitadas por outras companhias em missão bélica.
No percurso, e de olhar desperto em todas as direcções, uma densa vegetação nos entra pela retina visual. No meio de variados tons de verdes, sobressaía um matizado de cores que, só um registo digital poderá captar a sua real produção paisagística.
Pelo meio da vegetação, algumas bolanhas onde fertilizavam as cerealiculturas indispensáveis à alimentação e sobrevivência dos nativos.
De onde em onde, árvores de grande e pequeno porte, apresentavam-se queimadas por terem sido atingidas por raios fortíssimos que, durante a época das chuvas, eram normais, em simultâneo com os vendavais, anunciadores de tempestade passageira, mas perigosa dada a baixa e densa humidade climatérica, o que em zonas ou terrenos mais carregados de H2O, faziam atrair o raio potenciador de destruição.
A par daqueles troncos queimados que lhe davam uma certa e imponente beleza, outras obras arquitectónicas, os “baga-baga”, espécie de santuários edificados por formigas vermelhas. Estavam produzidos e esculpidos em arte tosca e natural, construídos e erguidos em tons quentes, formando como se fossem pequenas torres dispersas, imitando castelos.
A estrada, uma picada de terra batida, era ondulada de altos e baixos no contraste cinzento do solo nada acidentado, mas obrigava a um movimento de olhares à densa vegetação de arvoredo e capim.
O Outono não dava espaço à criatividade colorida que a natureza por si mesmo criara. Tudo era e parecia estranho àquela fértil natureza.
A par desta soberba paisagem, entramos no quartel de Madina Mandinga, cercado de arame farpado, com holofotes de alta voltagem e dispositivos detonantes preparados e distanciados entre si, no sentido de garantirem uma visualização e segurança, de modo a impedir a entrada de pessoas ou forças estranhas no recinto dos habitantes da 1ª comp/bart 6523.
No interior da protecção metálica, (arame farpado), o casario de cor branca, dava um ar de segurança e pacificação a quem lá entrava. O contraste térreo da parada, dava-lhe um aspecto solene num conjunto arquitectónico simples, coberta de chapa metálica cinzenta, aparentando uma pequena mansão solarenga e dividida em pequenos compartimentos que serviam de habitações, onde a Missão militar, podia em tempo certo e oportuno, pernoitar e descansar o seu sono isento de preocupações inexplicáveis.
As manhãs entravam cedo e, aquecidas de humidade, provocavam corpos melados que convidavam à não apetência ao uso de vestuário militar ou até mesmo do traje civil.
Com o andar do tempo, a adaptação foi ocupando o gosto, o seu lugar, e a sensibilidade de se acomodarem, sendo finalmente ajustada ao “modus vivendi”, maneiras de viver.
O véspero era um momento consolador de apreciação. Os seus ocasos, recheados de coloridos inesquecíveis que nos obrigavam a refectir, pensar e admirar em jeito de contemplação, escrever no nosso imaginário a construção de jogos de palavras associados à plástica de pensamentos estéticos, para assim, descrever os grandes momentos inesquecíveis que a natureza nos mostra e nos oferece, sem que tenhamos a oportunidade de relação e de diálogo com ela, para agradecer os momentos proporcionados.
Os noctunos absorviam vagarosamente o véspero, e era espantoso observar o lugar que um dava ao outro sem qualquer atropelo de sobreposição, escurecendo o dia na sua totalidade para dar lugar ao momento da noite. Era assim em Madina Mandinga.
José Graça Gaipo
Ponta Delgada-Açores, 10 Abr 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

SANTA PÁSCOA

                                   PÁSCOA é: VIDA
                                                           PÁSCOA é: PAZ
                                                                                   PÁSCOA é: AMOR
Camarigos de Madina; vamos recordar com saudade e carinho a Páscoa passada em Madina no longínquo ano de 74.
Vamos ter um momento de recolhimento para orientar as nossas preces para que Deus dê o eterno descanso aos companheiros que já partiram.
Camarigos, faço votos para que o coelhinho (não o Coelho) dos ovos da Páscoa encha a vossa cesta com ovos de AMOR e FELICIDADE.
Para ti Camarigo e tua familia, tudo de bom e que as bençãos do Senhor estejam em vós nesta auspiciosa quadra Pascal.

um bem hajam
                             Monteiro ( Manhiça )

terça-feira, 26 de março de 2013

A Semana Maior

Hoje, inicia-se a chamada semana maior.
Semana maior, não por se identificar em ter mais dias nem mais horas, mas sim, por ser um tempo muito especial na vida de homens e mulheres que professam o acreditar na grande festa da vida, a Páscoa de Cristo Ressuscitado.
A Festa da Páscoa é a Primavera colorida, onde os aromas da vida brotam viçosos e verdejantes.
Assim, a Páscoa, é a festa e a árvore da vida que nasce à beira das águas e se alimenta.
Ao vir o tempo, a sua folhagem não murcha, nascem-lhes os frutos, sempre viceja.
Que nesta Páscoa sejamos verdejantes e viçosos, prontos a alimentar cada dia o espírito de viver na alegria e felicidade que a vida nos proporciona em cada momento e em cada tempo.
Saibamos em cada tempo, transpor as dificuldades e os desânimos numa linha de esperanças e aleluias Pascais.
Que em cada tempo, o Sol do equinócio da Nova Páscoa, brilhe e aqueça os corações dos homens, e faça despertar em cada um, o homem novo na descoberta do dia radioso.
Que a Páscoa e o Cordeiro Pascal, que é Jesus Cristo, alimente sempre a nossa conduta humana, sobretudo nas famílias mais carenciadas de calor humano.
Que seja assim, a nossa Páscoa, envolta no abraço amigo, tornando-nos, homens novos em toda a sua dimensão de gestos, de atitudes, de palavras amigas, de bom senso, e de gratuidade carinhosa.
Para todos os amigos de Madina Mandinga, uma Santa e Feliz Páscoa.
Ponta Delgada, 24 de Março de 2013
José Graça Gaipo

terça-feira, 19 de março de 2013

DIA DO PAI

Camarigos de Madina;
Nós companheiros que somos pais e avós, também temos ou tivemos pai e, eles mais do que nós no contexto por onde passamos e nos conhecemos, sofreram muito, por isso mesmo, estejam onde estiverem, neste dia de comemoração devemos-lhes uma lembrança, um carinho, um dizer AMO-TE PAI.
MUITO LHES DEVEMOS E POUCO LHES DEMOS.
Camarigo, o amor de um pai é como o brilho das estrelas, mesmo longe, nós vemos e sentimo-las.
Amigo, o quanto é querido e gostoso sentir e ver os cabelos grisalhos do nosso pai e saber que lá estão depositados os arquivos do passado das nossas infâncias.
Para todos os Pais da familia de Madina um abraço e um até sempre.
Bem hajam.
Monteiro ( Manhiça )

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Trio/Quinteto

A Tertúlia de Madina Mandinga
Recordar, é ter presente na memória, os nossos momentos que hoje fazem história. É ter sentido de fazer conhecer aos nossos (filhos, netos e família), como passávamos os tempos, as horas, os dias, as semanas e os meses num país e num lugar, que a nossa memória aos poucos vai deixando de registar.

Hoje, os tempos são outros, a tecnologia e a ciência fizeram ultrapassar muitas coisas, até mesmo o conhecimento, a mentalidade e o relacionamento das pessoas.

Em Madina Mandinga, dada a situação local geográfica, era de todo impossível adquirir em suporte de papel, qualquer meio informativo de ocasião diária, semanal ou quinzenal, e em que muitos de nós, pudéssemos desfrutar de notícias e informações de utilidade em geral.
Apesar de não haver um quiosque de vendas de revistas e jornais, as noticias mais correntes, e comuns, eram as que chegavam através do correio particular e individual, que depois circulavam em forma de cadeado, mas aumentado.

A expectativa de receberem notícias era notória da parte do maralhal, que em silêncio, e bem atentos à chegada da coluna do correio, estavam prontos à chamada nominativa para receberem os célebres aerogramas ”correspondência gratuita, de cor amarela parda”.
Depois da correspondência na sua posse, recolhiam às casernas ou lugares habituais, para em silêncio e de olhos bem fitos no papel e sem qualquer olhar ou perturbação alheia, saborearem a leitura da(s) sua(s) missiva(s).
Cá fora, e do lado da secretaria que confinava com a caserna e os balneários, estava sempre em horário adequado e em tempo combinado, o trio/quinteto que na minha memória registei e denominei de tertúlia, que por norma trajavam vestes habituais: - calção verde tropa curto, botas de couro ou de lona, e por vezes óculos escuros, com cigarro a arder por entre os dedos.
Para lhes dar um certo ar de presença, por vezes usavam um tipo vara pequena, apelativa de um movimento rotativo ou de enrolamento com os dedos, enquanto falavam de diversificados assuntos de ordem privada ou de natureza pública.
Normalmente, e em movimento rotativo da cabeça, miravam de alto a baixo ou olhavam de soslaio, a(s) o(s) transeunte(s) passeante(s), em direcção a ambos os lados da via, direita/esquerda.
Sem conhecer o programa de cada momento da tertúlia, depreendia com alguma curiosidade que a temática da conversa diária, seria interessante e diversa, e sempre com assunto em novelo, intercalada de contos de fadas crescidas, histórias adultas, leituras de revistas fora do prazo, mas com assuntos interessantes e actualizados para o meio, etc., etc., etc., que, por sua vez ocasionavam as mais diversas interpretações deixando de lado, talvez, as anedotas, mas o facto é que lá sorriam e gracejavam com uso de gargalhada aberta e divertida.
Hoje, ao recordar aqueles momentos, em lugar e espaço desenquadrado dos demais escolhidos pelas tertúlias de vilas e cidades culturais, pois eles, nem tinham sala, eram desprovidos de ambiente próprio que, nem disponham de mobiliário adequado, sem cadeira, sem mesas, onde pudessem poisar um copo de whisky com gelo e água perrier, ou uma chávena de café bem negro e amargo, pois o espaço era exíguo e estreito, um simples passeio de rua, mas que se apropriava para uma passagem de tempo de análise e de variadas situações de vida ou momentos quotidianos de orla positiva ou menos boa.
Quem de perto lá passava, cruzava olhares àquela rotina que nem se atrevia em indagar o que quer que fosse, para não interromper ou dificultar a fluidez da conversa ou acontecimento passado.
Causou-me alguma estranheza em todo o tempo que lá andei, e a minha percepção na altura era, de que, momentos culturais e oportunos nunca tivessem motivado com algum entusiasmo e determinação a tertúlia, que por norma, a um canto da mesa se punham, sem perceberem e sem entenderem a minha mensagem.
Sei, que em muitos momentos, terminada a minha palestra cantante me diziam:
- gostei de ouvir, mesmo assim - mas dita com expressão de que não teria convencido nada com o meu canto de palavra interventiva.
Algo mingou de certeza, de uma parte ou da outra, ou de ambas. O circuito da comunicação não funcionou. A mensagem, ou não chegou a ser emitida e em boas condições, ou não foi captada como devia. É isto o que sucede na maioria das vezes, na transmissão da mensagem pretendida.
Para a maior parte da malta, fui actor e não mensageiro. Cumpri o meu número de programa solicitado, mas não devo ter deixado nada de novo nem motivador.
Fizera-me ouvir, mas não escutar, na medida em que ouvir é questão de som, mas escutar é afanosa procura da ideia através do som ou, até mesmo, do ruído.
Foi esta a impressão com que fiquei depois dos muitos momentos culturais. “Gostei de ouvir… mas não convenceu”.
Recordamos com saudades esses momentos culturais e alguma coisa ficou. Sabemos que ainda hoje, em todos os encontros/convívios, ao encerrar a confraternização é cantado, por todos, o Hino da Companhia.
José Graça Gaipo

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um Manjaco em solo Mandinga

Camarigos de Madina,
Em certos dias e em certos momentos, quando deixamos o nosso pensamento entrar e abrir o baú das nossas recordações, lembramo-nos de alguns episódios que hoje, e após 40 anos, ficamos admirados e interrogamo-nos, como é e foi possível?
É verdade, são peripécias que ainda hoje nos fazem recordar com saudade e nostalgia os momentos que nos marcaram, não por serem maus, antes pelo contrário, mas são cenas que nos parecem surreais.
Esta é a história do Armando, o “Manjaco”.
O Armando Manjaco era uma figura típica de Madina, ainda hoje estou por perceber o porquê da sua vivência em chão “Mandinga”, pois ele pertencia à etnia dos Manjacos. Certo é que era um faz tudo. O rapaz já adulto ajudava ora na cozinha, na padaria, em todo o lado, era um moço de recados.
Bem, mas no essencial é que existia por lá uma horta que era conhecida por a “horta do Tibrito”. Esse espaço verdejante e viçoso ficava nas imediações do depósito da água.
Dessa hortinha eram colhidos alguns legumes que por serem poucos, não dava para muito, lá se ia mitigando a carência de legumes frescos.
Esse espaço agrícola era tratado por um soldado que, com toda a certeza punha todo o seu saber e esmero na horta, até por uma questão pessoal mas também para agradar ao 1º Ti` Brito.  
Ora acontece que, tal como com todas as hortas, tinha de ser regada diariamente e quem tinha essa incumbência era o nosso personagem Armando Manjaco que, hora a hora, lá ia regando para que as hortaliças estivessem sempre verdejantes e a produção fosse mais rápida. 
O pobre do homem, para proceder à rega, tinha de tirar a água de um poço de alguma profundidade, com uma lata que talvez levasse 2 litros de água. Imaginemos agora quantas vezes ele tinha de mandar ao fundo do poço a lata, agarrada a uma cordita, para regar uma área com uns bons metros quadrados! Eram umas boas horas de rega.
O nosso amigo Armando gostava de ir passear até Nova Lamego e Bafatá para ver as montras e beber umas cervejitas (pagas pelos nossos soldados). Servia-se dos nossos transportes para viajar e como as colunas se realizavam logo pelo nascer do sol, o coitadito do indivíduo que dormia por lá em qualquer sítio, tinha que se levantar pelas 2 da manhã para regar a horta e assim estaria disponível para embarcar na nossa coluna. Ele só iria se estivesse tudo bem regado e após inspecção do Ti Brito. Era uma espécie de prémio que lhe era concedido.
Era um bom homem, gostava de beber, apreciava e bebia da água de Lisboa (aguardente). Algumas vezes bebeu álcool tingido com vinho tinto, receita especial e confeccionada pelo nosso Pastilhas que se prestava a este tipo de brincadeiras.
Um Manjaco muito educado, muito obediente, um “cromo” de Madina. Penso que muitos se lembrarão dele.
Um abraço
Monteiro (Manhiça)